quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Drogas – Saiba como as empresas se destacam na prevenção e recuperação.

Quando se fala em dependência química, há uma crença generalizada de que o usuário de drogas é quem está nas ruas, descuidado e incapaz de conseguir um emprego. Nesse imaginário, ampliado pelo noticiário, o crack surge como o campeão de consumo.
Pura ilusão. “No mundo e no Brasil, poucos dependentes estão fora do mercado de trabalho”, informa a psicóloga Fátima Macedo, fundadora da Mental Clean, consultoria especializada em saúde mental.
Além de estar dentro de alguma empresa, os dependentes químicos são encontrados em todos os setores e escalões, reforça a psicóloga Carla Dalbosco, professora no Hospital de Clínicas de Porto Alegre e especialista em prevenção e assistência no uso de drogas no mercado profissional. “O consumo de drogas é bastante democrático. Vai do chão de fábrica à alta direção.”
Pode acontecer com qualquer um de nós
Nem crack nem cocaína são os campeões de consumo. O grande problema está no álcool, facilitado pelo fato de ser socialmente aceito. Pesquisas da Organização Mundial da Saúde (OMS) estimam que até 12% da população produtiva abuse de bebidas, um índice semelhante ao encontrado na população em geral.
“Dentro das empresas, o consumo de drogas ilícitas, incluindo o crack, não passa de 1%”, diz a assistente social Angela Finck, do Sesi/RS, especialista em prevenção ao uso de drogas no trabalho.
A boa notícia é que aumentou na sociedade a sensibilidade em relação ao uso dessas substâncias, não mais tratado só como questão de segurança pública. A má notícia é que a maioria das empresas ignora o problema ou se mantém omissa, como se nada tivesse a ver com isso.
Problema e solução
Com se verá, as empresas fazem parte do problema. E têm papel de protagonistas na solução. De um lado, são penalizadas com acidentes de trabalho, queda de produtividade, clima interno ruim, faltas, altos custos de assistência à saúde e até erros de decisão que comprometem o negócio.
De outro lado, o mundo empresarial representa o agente mais influente na mudança de comportamento. “Enquanto, na média mundial, as estatísticas de efetividade dos tratamentos são de 30 a 40%,” explica Fátima Macedo, “os programas corporativos de recuperação alcançam 70% a 80%, segundo as pesquisas.”
Os especialistas atribuem a maior adesão obtida pelas empresas ao formato que seguem seus programas de reabilitação, com métodos e objetivos claros, e também à existência de um vínculo forte entre as duas partes.
A empresa faz parte da história do funcionário, onde está sua rede de relações, é a fonte de realização e garante sua renda e da família. A pessoa reconhece a oportunidade de fazer o resgate com o tratamento. Se tem sucesso, torna-se um profissional melhor.
Abordagem moderna
Há tempos, a ciência sabe: a dependência decorre de uma falha na química do cérebro para processar as substâncias. Isso explica porque grande parte da população consome bebidas alcoólicas e apenas 12% se torna dependente.
Nos Estados Unidos, a maioria dos estados possui legislação que obriga as empresas a manter medidas antidrogas. Cerca de 90% mantêm programas estruturados.
A abordagem endureceu depois de um dos mais trágicos desastres ambientais, o do petroleiro Exxon Valdez, em 1989. O navio inundou as costas do Alasca com petróleo em razão de um erro cometido por um comandante embriagado. A medida se expandiu entre os países desenvolvidos, chegando a 75% das empresas do Canadá e França.
Omissão
No Brasil, o número não chega a 10%, com predominância de multinacionais. As empresas da área de transporte são obrigadas por regulação a monitorar pilotos, controladores de vôo e motoristas de carga e passageiros, entre outros profissionais.
A atitude mais comum, do pequeno ao grande empresário, é pensar “isto não acontece aqui”. A incapacidade de identificar o dependente e buscar solução leva à negação. Ainda mais sabendo-se que o stress típico do ambiente de trabalho pode ser uma mola propulsora para o problema.
“Nas empresas pequenas, há a dificuldade de contar com profissionais capacitados para esse tema”, explica Angela Flinck. “Acaba sobrando para o RH, o faz tudo na empresa, para saber lidar com habilidade.”
Mesmo as empresas com programas tradicionais, segundo os especialistas, fazem um ótimo trabalho com os escalões de base e o médio, mas têm dificuldade de aplicar os procedimentos à alta direção. Se superam o pacto de silêncio, o caso tem encaminhamento sigiloso, fora do programa, com internação em clínicas exclusivas.
A pressão do medo
Apesar do baixo empenho das empresas, muita coisa avançou na visão da dependência química, avalia Angela Finck. Não é mais julgada apenas como um problema de polícia cercado de condenação moral. Passou a ser vista como uma doença e uma questão de saúde pública.
Na abordagem moderna do problema, a prevenção ocupa um espaço-chave, dentro de uma estratégia de orientação, prevenção e controle. A consultora do Sesi/RS compara: “é o mesmo encaminhamento que se dá a alguém com diabetes.”
Esta mudança de posição faz toda a diferença quando se sabe que admitir o uso de drogas e buscar ajuda pode ser ainda mais difícil no ambiente de trabalho. Ainda está viva a lembrança de que, até pouco tempo, o problema era resolvido com demissão por justa causa.
O funcionário tem medo de perder o trabalho ou de ter a vida profissional arruinada pelo rótulo de “viciado”. Além disso, o dependente de álcool tem uma resistência ainda maior ao tratamento por não admitir o problema.
De acordo com Fátima Macedo, a dependência alcoólica fica muito tempo mascarada; em média, são cinco anos para diagnosticar. Quando a situação explode na empresa, os danos já começaram há tempos do lado de fora. São prejuízos por problemas legais, financeiros, familiares, batida de carro, agressão etc.
Na abordagem da dependência, os extremos são indesejáveis. A falta de limites e a condescendência de chefes atrapalham o encaminhamento do problema. “O empregado só vai buscar ajuda se sentir necessidade”, explica a psicóloga.
Por outro lado, “uma postura policialesca, pouco compreensiva, não diminui o problema. Pelo contrário, dificulta a busca por ajuda”, disse o psiquiatra e pesquisador Thiago Fidalgo, coordenador do setor de adultos do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad).
O melhor antídoto
Como se vê, não se trata de uma iniciativa de curto prazo e providências rápidas. De acordo com as orientações do Proad, ao trazer o assunto para dentro da empresa e tratá-lo abertamente, diminuem as chances de que se torne um tabu. Ou que os funcionários fiquem com medo de buscar ajuda ou de falar sobre o problema.
Para Thiago Fidalgo, coordenador do Proad, mais importante do que falar de drogas, é abordar a promoção da saúde. “Estimular o cuidado com a própria saúde é a melhor forma de prevenir problemas originados no uso de substâncias. Uma pessoa que se preocupa em cuidar do seu corpo e em se manter saudável vai conseguir pensar melhor sua postura frente ao uso de substâncias.”

Fonte: Diário do Comércio, por Inês Godinho, 26.07.2016

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