segunda-feira, 20 de abril de 2015

Profissionais com deficiência lutam por reconhecimento.

Quatro anos atrás, quando lutava para se adaptar às consequências de um acidente com um parapente que o deixou incapacitado, Toby Gordon-Smith, diretor de estratégia da Glanbia Performance Nutrition, de Londres, prometeu a si mesmo que não deixaria sua carreira ser prejudicada pela perda da mobilidade. Ele, pelo menos, pôde se considerar com sorte. A maioria dos outros pacientes com lesões de coluna que se encontravam no mesmo hospital tinha empregos manuais que exigiam aptidão física total.

"Eu me lembro de pensar que o mundo daquelas pessoas havia mudado, mas que aquilo não precisaria acontecer comigo. Meu cérebro ainda funcionava e eu poderia me sentar à mesa e usar um computador". Havia apenas um problema. Ele não tinha ideia de como, em uma cadeira de rodas, conseguiria fazer as viagens internacionais que seu cargo exigia.

Hoje, Gordon-Smith divide seu tempo entre a Europa continental, o Reino Unido e os Estados Unidos. Quanto a isso, ele é grato a um chefe que sugeriu que antes de tentar uma viagem internacional, eles deveriam seguir juntos para a fábrica da companhia em Middlesbrough - uma viagem normalmente feita de trem - "para testar o terreno". Ele dominou a logística e logo estavam viajando desacompanhado, carregando sua bagagem de mão no colo. "Honestamente, hoje acho muito fácil viajar."

O chefe de Gordon-Smith o encorajou a buscar alternativas para continuar exercendo sua função internacional. Como hoje precisa de mais tempo para se aprontar, ele evita os primeiros voos do dia, faz menos viagens, mas por períodos maiores, agendando suas reuniões em blocos.

Muitas pessoas talentosas que sofrem acidentes ou nascem com deficiências físicas não recebem tanto apoio. Entrar em prédios e usar o transporte público são desafios diários. Mas o mais desanimador são as baixas expectativas que os recrutadores sempre têm em relação aos profissionais com deficiência.

"Há uma percepção de que você é capaz de fazer um trabalho de escritório, mas não de, verdadeiramente, tocar um negócio", afirma Paul Wilden, um executivo do alto escalão do banco Standard Chartered em Cingapura, que nasceu surdo devido a uma má formação do ouvido direito.

Ajith Kubatoor, um especialista em tecnologia da informação de Bangalore que hoje trabalha na Infosys, sofreu com esse preconceito. Em 2000, pouco depois de se formar com louvor, o que via como um passaporte na carreira, ele sofreu um acidente de automóvel que o deixou paralítico. Quando se recuperou, ainda estava confiante de que conseguiria encontrar um emprego rapidamente. No entanto, foi recusado em mais de 50 empresas, até que a IBM o contratou. "Embora estivesse em uma cadeira de rodas, eu ainda era o mesmo codificador de antes do acidente."

Em todas as culturas, os trabalhadores com deficiência sofrem com o preconceito de vez em quando. Mas em alguns países o problema é agravado por sistemas legais que dão pouca atenção aos direitos das pessoas com deficiência. Para as multinacionais, isso representa um dilema: como corresponder às aspirações de reconhecimento igualitário dos funcionários em um mundo onde não há consenso sobre as responsabilidades devidas àqueles que têm deficiência?

Para lidar com as tensões interculturais, as empresas sempre olharam para as leis nacionais para moldar suas políticas localmente. A desvantagem dessa postura é que os patrões podem acabar tratando os funcionários de maneiras muito diferentes, dependendo de onde eles residem. Um gestor americano ou europeu, ciente das leis que exigem "acomodações razoáveis" para os trabalhadores com deficiência, pode estar mais propenso a autorizar uma cadeira ortopédica para um funcionário com problemas de coluna, do que um administrador de um país que não possui leis de igualdade.

Estratégias que se concentram apenas no cumprimento das leis prejudicam os trabalhadores de países que não priorizam os direitos iguais. Com o mundo cada vez mais interconectado, elas também podem ser ruins para os negócios, deixando as organizações globalizadas suscetíveis a acusações.

O Business Disability International (BDI), um fórum patronal recentemente estabelecido, almeja acabar com as barreiras que impedem o progresso das pessoas com deficiência em todas as partes do mundo. As iniciativas defendidas incluem a adoção de práticas internacionais que favoreçam a contratação de profissionais com deficiência, encorajar as "disability networks" para a troca de ideias e estabelecer "grupos de escuta", em que trabalhadores com deficiência falam sobre modificações de políticas que poderiam ajudá-los.

Realizar as adaptações no local de trabalho de maneira centralizada é outra prática positiva, afirma Susan Scott-Parker, presidente do BDI. A ideia, tomando como exemplo a cegueira, é proporcionar aos funcionários acesso a tecnologias prestativas, como softwares que leem o que está escrito na tela do computador - independentemente de os funcionários estarem trabalhando em um país rico que subsidia os custos, ou em um mercado emergente. "Com a centralização, removemos as restrições orçamentárias para os gerentes locais", diz Mark McLane, que comanda a área de inclusão e diversidade global do Barclays.

No que diz respeito a preconceitos culturalmente impregnados, o desafio é saber até onde e com que rapidez eles devem pressionar por uma padrão. Um exemplo é a saúde mental, que vem ganhando importância nas agendas de bem-estar dos países ocidentais, mas em muitas culturas asiáticas continua sendo um tabu.

Não há soluções fáceis, diz Natalie Woodford, que comanda o desenvolvimento de talentos e liderança na GlaxonSmithKline (GSK). Em sua opinião, é melhor começar os assuntos de difícil discussão onde já há "uma certa energia" antes de enfrentar a questão em âmbito global. Então, as empresas podem experimentar abordagens diferentes. Ao começar por mercados mais abertos, pode ser possível convencer os funcionários bem-sucedidos que têm alguma deficiência a compartilhar suas histórias, reduzindo o estigma.

Em uma observação otimista, Karl Meesters, gerente de projetos da Adecco em Bruxelas, que trabalha com o Comitê Paralímpico Internacional na colocação profissional de ex-atletas com deficiência, diz que a tecnologia está transformando as perspectivas para esses trabalhadores.

Diagnosticado com uma doença ocular degenerativa aos 20 anos e hoje praticamente cego, a posse mais valiosa de Meesters é seu iPhone com leitor de tela. Ele o usa para ouvir os e-mails que recebe e se movimentar mais tranquilamente, averiguando reservas de voos e partidas de trens, além de chamar táxis. "Quando chego pontualmente para presidir uma reunião internacional, sei que isso muda a maneira como as outras pessoas na sala percebem pessoas com deficiência visual."

Embora esteja no momento concentrado na Europa, Gordon-Smith já começou a pensar em como poderá, no futuro, estar mais familiarizado com os mercados da África e do Oriente Médio. "Desde o começo, o diálogo entre mim e a companhia sempre foi ′como vamos fazer esse trabalho?′ - e sempre fizemos."



Fonte: Valor Econômico / Financial Times, por Alicia Clegg, 20.04.2015

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